Por Nicholas Torsani
Os países nórdicos, por mais que sejam caracterizados como pertencentes ao seleto grupo das economias mais complexas do mundo, com ênfase à Suécia e à Finlândia, respectivamente a 7ª e a 10ª no ranking de 2018, ainda enfrentam alguns dilemas relacionados aos minerais na geopolítica local. Ao menos no que tange a Noruega, o segundo mais rico, país que ainda viu seu PIB diminuir 6% entre 2008 e 2018, a questão mineral se sobressai, sendo o petróleo o principal produto de exportação deles, incorporando mais de 50% do todo. O dilema se estende para o mais “pobre” deles, a Islândia, que por mais que venha crescendo continuamente ainda é extremamente dependente de dois produtos de exportação principais, o alumínio e a pesca.
Desse modo, se torna substancial para esses estados, que capitaneiam o chamado “Estado de Bem-Estar Social” ao redor do mundo, captarem altos impostos, seja via importações de empresas estrangeiras, ou via imposto de renda, que batem cerca de 45%, de modo a sustentarem um já consagrado modelo de governo. Em vista disso é que se sobreleva o papel do hidrocarboneto no caso norueguês, que se torna substancial no financiamento desse modelo, cada vez mais pressionado pela migração emergente no continente europeu e pelos crescentes movimentos de extrema direita e pró-austeridade globalmente. O que contribui para essa manutenção é em especial o planejamento e a reserva de recursos de Oslo, que atualmente compreende mais de 1 trilhão de dólares, dando alguma sustentação em caso de emergência, além do seu alto PIB per capita. Mesmo assim, em uma conjuntura na qual os combustíveis fósseis tendem a saírem de cena e os gastos crescentes não são acompanhados por um aumento do PIB, mas sim por uma considerável retração, é necessária alguma atenção futura para o desenvolvimento da economia nacional.
A exemplos bem sucedidos do “primo rico” sueco, dos finlandeses e dinamarqueses, a complexidade econômica mostra sua face mais importante justamente na segurança que esses países terão em manter seus ecossistemas político-sociais funcionando efetivamente sem potenciais sustos. Destarte, se baseiam muito na indústria de tecnologia avançada, eletrodomésticos e outros bens com valor agregado para exportação, o que permite uma maior preservação desses modelos.
Na série norueguesa Okkupert é retratado um cenário distópico no qual o país subitamente suspende sua produção de petróleo e sequencialmente se vê extremamente pressionado pela Rússia e União Europeia em vista da escassez do hidrocarboneto. Apesar de muito intrigante e ter alguma possibilidade real de acontecer, o mais provável é que o país continue a explorar suas vastas reservas de óleo, especialmente se tratando de outro ponto pertinente na geopolítica regional: o degelo do Ártico. Considerando um futuro em que o aquecimento global leve efetivamente ao derretimento dessas placas polares, é mais esperado ainda que haja uma política de superexploração dessas águas tanto estrategicamente – visto sua importância para o comércio marítimo da Rússia, por exemplo – quanto para a exploração dos potenciais campos de petróleo lá presentes, que darão uma sobrevida à expansão nacional.
Cabe ressaltar ainda a importância que os europeus têm para com o comércio com os países nórdicos, mais nitidamente a Alemanha, a Holanda e o Reino Unido. Assim, considerando que nem Islândia nem Noruega fazem parte da União Europeia, podem obter tanto vantagens quanto desvantagens futuras nas tratativas comerciais e na própria conjuntura nacional de seus países. Isso se mostra tanto em virtude das vantagens comerciais que um país membro pode obter, quanto das vantagens em não ter obrigações que países membros têm, como na recepção a refugiados e às doações involuntárias. Países como a tríade sueca, finlandesa e dinamarquesa já mostram certo grau de insatisfação para com a União Europeia, mesmo com seus maiores parceiros comerciais estando por lá, o que pode ser atribuído muito à onda de desintegração da cooperação mundial, mas também aos já presenciados sinais de que a qualidade de vida do modelo de bem-estar social está desintegrando.
Em vista disso, se nota a importância que as decisões políticas futuras vão ter nos ecossistemas políticos desses países. Por mais que não tenham histórico de litígio geopolítico, é muito provável que hajam mais atritos futuros acerca das pautas étnico-sociais e principalmente econômicas, como supracitado. Além disso, com a crescente pressão russa sobre o oriente europeu e os assédios da OTAN à Suécia e à Finlândia, o tabuleiro global só tende a esquentar nesta região.
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